31.5.09

c o n t i n [g] e n t e


Curadoria que abri semana passada no Centro Cultural Arquipélago, em Floripa. Lanço o texto abaixo.



De Insularismos e Contingências


continente

1. Parte continental de uma região em relação a outra que é insular; território vastíssimo cercado por águas oceânicas (geog.)

2. Que contém ou encerra alguma coisa (opõe-se a conteúdo)

3. Unido em uma só peça, contínuo; contíguo


contingência / contingencial

1. Fato que não é previsível ou sobre cuja ocorrência não há certeza, que depende de circunstâncias não de todo controláveis

2. Diz-se das coisas e dos acontecimentos que não têm em si a sua razão de ser, pois se concebem como podendo ser ou não ser (Fil.)

3. Diz-se de uma expressão verbal ou simbólica cuja verdade ou falsidade só pode ser conhecida pela experiência (Lóg.)

4. Conjunto de pessoas formado para executar determinada tarefa.

5. Diz-se de evento natural ou humano que se caracteriza por sua absoluta indeterminação e imprevisibilidade (filosofia)

6. Quantidade máxima de um produto que pode ser exportada ou importada por um país num determinado período (comércio, economia)


gente

1. O gênero humano

2. Conjunto dos habitantes de um país, região, estado etc.

3. Quantidade indeterminada de pessoas

[fontes: dicionários Caldas Aulete e Houaiss]



Situação: convite para conceber e realizar mostra no Centro Cultural Arquipélago com uma única imposição na premissa aberta – a de incluir apenas artistas do estado de Santa Catarina.

O que poderia soar como restritivo acaba por se revelar um fator estimulante: oportunidade única para uma experiência de imersão numa produção de qualidade, mas de modo geral sem tanta visibilidade fora do circuito local. Do material que pude avaliar para definir a seleção que compõe essa exposição, chamou-me a atenção a proporção de trabalhos consistentes e percursos poéticos bem definidos, no que me pareceu uma amostragem razoavelmente representativa da cena contemporânea catarinense.


Sem um norte curatorial estabelecido a priori, dado o contexto incerto e meu conhecimento limitado da produção do estado, preferi aguardar que os trabalhos falassem por si e desenvolver um mote a partir deste conjunto. No processo de analisar, em muitos casos pela primeira vez, o material que me foi disponibilizado de artistas de Blumenau, Joinville, Tubarão e Florianópolis, fui tomado por algumas inquietações [1]. Mas a mais notável foi sem dúvida perceber a convergência de um referencial temático em grande parte da produção que me chamou a atenção: a referência marcante da paisagem e/ou da natureza. Seja como assunto, tema avulso, comentário, recurso formal ou acessório conceitual, tal presença se fez impor de um modo inesperado – para minhas expectativas - mas incisivo, e frente à qual não pude permanecer impávido.


Os trabalhos, escolhidos por critérios de afinidade e qualidade subjetivos — como não poderia deixar de ser — me forçaram então a assimilar esse dado. E embora não pensasse de antemão em incorporar a natureza ou a paisagem como eixo temático — até por esse assunto já estar sendo exaustivamente retomado na agenda curatorial do grande circuito da arte de alguns anos para cá —, por outro lado não pude fechar os olhos a este fato. Assim, a incidência de panoramas, mares, águas, céus, horizontes e cartografias trabalhados em procedimentos e meios diversos se afigura espontaneamente — ou naturalmente, com o perdão do trocadilho como um elemento aglutinador das obras nesta exposição. A tal ponto que sua presença é mesmo indisfarçável enquanto eixo de força da mesma, por mais que a abordagem curatorial em princípio relutasse em assumi-lo inteiramente enquanto tal.



Não me furto a arriscar algumas possíveis considerações, "estrangeiro" que sou neste contexto, a propósito desta recorrência "paisagística". Por um lado, ela obviamente passa em parte pelo dado geográfico: a capital catarinense situa-se numa ilha, afinal de contas, e a força deste repertório visual alimentando o imaginário criativo coletivo é natural. Falar do seu lugar, ou do que ele fala a si, é prática quase inevitável como motor de uma poética. Mas percebe-se também um outro “insularismo” em jogo, este mais simbólico, no tocante à produção artística; um que é determinado por fatores extra-topográficos, e se estende para todo o estado, o "continente". Não há como abstrair o fato de se tratar de um contexto marcado pela falta de políticas culturais efetivas para as artes visuais, bem como a presença ainda incipiente – quando não nula – de um mercado específico para arte contemporânea, especialmente na capital. Galerias, escritórios de arte e afins são sempre um fator de peso para se mensurar a real demanda de uma produção, além de naturalmente se constituir num importante mecanismo de difusão desta. Assim, tem-se uma cena razoavelmente ativa e articulada, com produção de alto nível mas que de modo geral ainda se ressente de conquistar visibilidade à altura de seu potencial para além do âmbito estadual. Nesta dinâmica em que convergem a adversidade, a consciência da mesma, pulsão criativa e espírito mobilizatório por parte dos artistas – agora falando sobretudo a partir do contexto de Florianópolis, que conheço melhor – se instala um estado de coisas em que a meu ver a paisagem/entorno se afigura até de maneira involuntária como indício desta mesma adversidade. Ainda que de um modo oblíquo, pode ser a um só tempo uma forma de falar do seu lugar e da falta de lugares[2].

Digressões à parte, é portanto desta forma expandida, de acepção aberta e filtrada pela livre-associação, que interessa tratar do aspecto insular como pulsão curatorial desta mostra; e por este viés o estado como um todo, o "continente", acaba sendo também abarcado. E foi a partir de continentes — contidos e que contém -, conteúdos e saborosas contingências que se constituiu o escopo que esta mostra apresenta como resultado final. Para não mencionar o aspecto mais importante, que acaba invariavelmente sendo "gente".


Guy Amado - maio de 2009


1] Curiosamente, após a seleção que definiu o conjunto final de trabalhos, me dei conta de uma peculiaridade: a total ausência de pinturas no grupo que integraria a curadoria. Apesar de haver dois ou três casos de artistas pintores/as no material que analisei, pareceu-me uma amostragem baixa. Constatei tal fato com certo pesar, já que me agradaria ver essa modalidade representada na mostra. Em conversas posteriores com artistas locais constatei que tal rarefação da prática pictórica parece ser um fato mais ou menos percebido embora pouco comentado, com possíveis explicações que não caberiam discutir aqui.


[2] Nesse sentido, a propósito de "lugares", faz-se mais que necessário mencionar a importância da universidade no cenário artística de Florianópolis; a UDESC desempenha papel vital neste cenário, tornando-se um dos principais elementos catalisadores desta cena.



19.3.09

De carros, morte e sublime

Last night I drove a car
Not knowing how to drive
Not owning a car
I drove and knocked down
people I loved
...went 120 through one town.
[G. Corso]


I believe in the beauty of the car crash, in the peace of the submerged forest, in the elegance of automobile graveyards, in the poetry of abandoned hotels. [J. G. Ballard]

24.2.09

Brasil[idade] na Bienal de Veneza 2009

Diz a matéria*: "Dois artistas de fora do eixo Rio-São Paulo foram os escolhidos pelo curador Ivo Mesquita para representar o Brasil na Bienal de Veneza, programada para ser aberta ao público no dia 7 de junho [de 2009]: o fotógrafo paraense Luiz Braga e o pintor alagoano Delson Uchôa. Mesquita, curador da polêmica 28ª Bienal de São Paulo, encerrada em dezembro, confirmou, ontem, à Folha, sua seleção".

Braga é um fotógrafo muito influente e uma referência importante na cena artística de Belém e do Pará. Sua produção tem forte foco nas paisagens e tipos locais, que captura com maestria. Apesar de produzir há muito tempo, ainda não tem grande visibilidade no eixo Rio-SP, ao menos no chamado circuito da arte contemporânea - talvez inclusive por seu trabalho não ter que ser visto como tal, creio eu, aproximando-se por vezes de fotojornalismo de qualidade.

Luiz Braga

O mesmo se aplica, em outra escala, a Uchôa, pintor a meu ver excessivamente impregnado de estilemas do cânone popular e do repertório imagético de sua região - o que em princípio não é um problema -, mas aspirando há tempos a uma maior aceitação e visibilidade no já referido "circuitão". Começou a ganhar destaque com mostra no Ohtake Cultural, há alguns anos, e mais recentemente no Panorama da Arte Brasileira de 2007 e na Paralela 2008, culminando com sua entrada para o time da galeria Brito Cimino [atualmente apenas "Brito"]. Em minha opinião, contudo, ainda há certo descompasso entre o que move sua fatura, suas referências e plasticidade carregada de exotismos e comentários a um repertório regional, e sua circulação "autônoma" no meio da arte contemporânea. Mas isso é apenas uma opinião, talvez nem tão relevante, e de qualquer forma não vem ao caso agora.

Delson Uchôa

O que me chama atenção na escolha dos dois artistas, entretanto - qualidade dos trabalhos à parte, embora este quesito possa ser questionável, especialmente no que se refere a Uchôa - é uma característica eminentemente "brasileira" fortemente presente nas produção de ambos. E afirmo isso com conotação deliberadamente pejorativa, subentendendo um componente de certa "estereotipicidade tropical" que a fotografia de Braga e a pintura de Uchôa apresentam. Um clichê, mesmo. Digo, é mais que natural que ambos, nascidos em regiões de forte impacto da cultura popular e de uma natureza luxuriante incorporem estes dados locais em sua práxis artística; e certamente não estariam sozinhos nesta linha de procedimentos. Basta pensar em nomes de destaque no circuito, como Emmanoel Nassar, Marepe e Efrain Almeida, dentre outros, que logram fazer uso desse elemento regional assimilando-o e articulando-o com mais desenvoltura na constituição de uma plataforma estética autônoma em relação a leituras "regionalistas".
A questão é que, uma vez arrolados como "a dupla" a representar o Brasil no pavilhão da Bienalle, sua produção oferece, ou arrisca-se a oferecer, pelas citadas qualidades de sintetizar certo ideário "tropical" [não tenho como saber até que ponto deliberada ou involuntária, por parte dos artistas], uma leitura um tanto esquemática na linha "Brazil for export" que tanto apelo desperta no exterior e que tão pouco corresponde à real dinâmica artística em curso no país.
E aí causa estranheza a escolha de Ivo por estes nomes, sendo ele grande conhecedor da arte no país e um especialista em arte da América Latina, e até onde sei desde sempre empenhado em evitar clichês e leituras estereotipadas ou "encapsulantes" desta ordem. Valorizar a arte produzida no Brasil envolve de saída não confundi-la com o rótulo "arte brasileira" [uma abstração ou um construto de mercado, dependendo do ponto de vista], não devendo portanto passar pela reafirmação ou engrandecimento de folclorismos, exotismos ou outros "tipicismos".


Guy A.


* http://74.125.113.132/search?q=cache:U425AlCoCGQJ:www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u493468.shtml+representa%C3%A7%C3%A3o+brasileira+%22bienal+de+veneza%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br