Sugestões semi-aleatórias de leitura.
Ave de rapina em vôo rasante sobre tópicos irrelevantes

- A tarefa atual da arte é introduzir o caos na ordem.
- A emergência de toda obra de arte contradiz o pronunciamento segundo o qual ela não mais poderia aparecer.
- A grandeza de uma obra de arte está fundamentalmente no seu caráter ambíguo, que deixa ao espectador decidir sobre o seu significado.
- A arte tem tudo a perder menos o niilismo da impotência.
-...a castração da percepção por instâncias de controle que lhe recusam toda antecipação desejante, obriga-a por isso mesmo a inserir-se no esquema da repetição impotente do que já é conhecido.[...] Uma vez suprimido todo traço de emoção, o que resta do pensamento é apenas a absoluta tautologia.
- Ainda que se lhe concedesse aquela recomendação discutível de que a exposição deve reproduzir exatamente o processo de pensamento, este processo não seria uma progressão discursiva de etapa em etapa, assim como, inversamente, tampouco os conhecimentos caem do céu. Ao contrário, o conhecimento se dá numa rede onde se entrelaçam prejuízos, intuições,[...] antecipações e exageros; em poucas palavras, na experiência, que é densa, fundada, mas de modo algum transparente em todos os seus pontos.
Theodor Adorno, in Minima Moralia.
3. Patrocínio governamental e/ou privado é sempre um ótimo jeito de armar uma gastança generalizada. E pode vir de muitas formas – assistência pública, financiamento a empreendimentos, bolsas e subvenções, chantagem e suborno; tudo isso é, antes de tudo, dinheiro para gastar. Experimente começar verificando quão rápido você pode descontar seu cheque de seguro-desemprego num bar ou similar.
8. Terrorismo e violência contra o estado podem trazer certa diversão e satisfação, mas certifique-se de estar sempre com o equipamento adequado para o serviço. Carabinas de grosso calibre são rústicas e podem danificar suas (caras) roupas. Enfim, se você vai atirar num policial esteja certo de estar usando uma boa arma. 9. A culpa e a moral cristã não tem lugar em nossa filosofia. Deixe isso pra lá e parta direto para a baixaria; passe no sex shop da esquina e bote pra fora o pequeno demônio que existe em você. 10. Escolha as influências e heróis certos – aceite nossa dica e passe o dia das próximas eleições na cama, tomando uns Alexanders ou margueritas, ouvindo algo estimulante e mergulhe em leituras como Baader-Meinhoff, Chomsky, Susie Bright, Harry Roberts, Valerie Solanas, Guy A. Debord, Ken Knabb, Viv Nicholson e outros agitadores do mundo todo. O parco valor do salário mínimo ou tópicos dessa natureza não são uma de nossas preocupações, quando queremos que todo o sistema venha abaixo, quando visamos sua derrocada.Decadent Action, BM Decadence,
Georg Hegel, 1820 e poucos


Num certo limbo que demarca a fronteira entre ficção e memória, imerso num clima de filmes baratos de terror, se situa o universo esquizo-mutante e sombrio de Charles Burns (1955, Washington DC, EUA). Mas essa pode ser uma maneira um tanto simplória de apresentar o trabalho deste genial e diferenciado artista gráfico das HQs; para ilustrar (ou confundir) melhor, talvez se possa ter uma impressão mais abrangente das peculiaridades de sua obra se buscarmos um paralelo no cinema: imagine-se então um caldeirão de referências com diretores como Ed Woods, David Lynch, Russ Meyer, David Cronenberg e John Waters. Cada um à sua maneira, desenvolveram uma abordagem particular e imprimiram sua marca nos segmentos cinematográficos em que atuam; e mais que isso, nos filmes de todos esses caras se percebe um certo clima de estranhamento - em graus diversos - que também está presente nas criações de Burns.
Suas histórias, que começaram a chamar atenção nas páginas da lendária publicação de HQ-cabeça RAW (convidado pelo próprio Art 'Maus' Spiegelman, que coordenava a revista), na New York do início dos anos 80, são recheadas de clichês do mundo dos quadrinhos – garotos espertos, cientistas sinistros, detetives durões, sexualidade e luxúria adolescente e horror no estilo da mítica e saudosa editora EC Comics -, mas rearranjados num inquietante e nervosamente divertido padrão. Dessa trama de iconografias relativamente familiares surgem referências a arquétipos e traumas reais da infância, de perda, culpa e de alienação; no entanto, o horror parece estar sempre à espreita, dando a tônica. Burns associa uma estética 'gelada' e de alta sofisticação gráfica a um visual relativamente convencional dos comics, sublinhando a artificialidade do que tendemos a considerar 'normal', gerando assim um interessante estranhamento.
Em 1994, deu início à empreitada mais ambiciosa de sua carreira: a série Black Hole. Estimado para 14 edições, esse conto de horror moderno tem seu eixo principal numa espécie de praga que se transmite sexualmente entre adolescentes. Semi-autobiográfica, BH se passa em Seattle, onde Burns cresceu, em meados dos anos 70. Inicialmente publicada pela Kitchen Sink Press, uma das principais editoras da cena de HQ independente/alternativa nos EUA, a série foi transferida, em 1998 (na altura do n. 5) para a também influente Fantagraphics pelo próprio autor. Desde sua estréia, BH tem sido indicada anualmente para o Eisner e o Harvey Awards, principais prêmios da área de HQ, e ainda não finalizada, foi incluída no Top 100 Comics of the Century do respeitado The Comics Journal. Em 1999, a mesma Fantagraphics começou uma empreitada ambiciosa (e bem-vinda): as obras completas de Charles Burns. Pensada para 5 volumes em brochura - começando por El Borbah e Big Baby, algumas de suas primeiras séries regulares -, esse projeto irá reunir toda a sua produção até Black Hole.
Burns vive hoje na Filadélfia com sua mulher, a pintora Susan Moore, e suas duas filhas pequenas. E mantendo o clichê, o cara é uma figura jovial e pé-no-chão, ao contrário do que suas histórias possam sugerir. Evita entrar em escrutínios sobre sua produção, preferindo que os leitores mergulhem em sua sedutora e perturbadora obra por si mesmos – o que não se garante é que saiam ilesos.


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